domingo, 19 de fevereiro de 2017

Em Agosto, conto ir a este museu...


... com o qual me correspondia em 1985.

3 X stable-type doors




7ª resposta



Envolventes Exteriores da Leitura

Para o Miguel Martins

Nota bem que «nunca se contam histórias sem mentir um pouco»: é uma citação, Miguel. Sem pudor, transcrevo para aqui o primeiro verso de “Gorges du Dadès” de View-Master. Um descaramento privado já que opto por atacar estas linhas primeiras na primeira pessoa, o poema citado é meu e o brinquedo das nossas infâncias – aqui guardado ao meu lado – remete para um entendimento à letra da tua exortação: envolventes exteriores (a fórmula jornalística da minha breve e juvenil passagem pela informação: 3Q OPC: quem, o quê, quando; onde, porquê e como). I.e., gossip.
Eu e a minha primeira mulher, a Mafalda, partilhávamos a leitura de um livro na Primavera de 1998 numa viagem de comboio entre Chesky Krumlov e Praga. E já que as demais prerrogativas despachadas estão, interrompamos aqui a obediência à fórmula, para introduzir uma curta deriva antes de abordar o que dela sobra: como e porquê.
Hoje o peso da idade aligeira tudo no que concerne à leitura: sou um leitor omnívoro, tenho a certeza de que nunca irei ler os livros todos – e isso já me não angustia; troco bem uma passagem à beira do nosso rio pela leitura de uma passagem de De Maistre. Porém, preciso de o ler e reler, assim como De Maistre precisava de se soerguer em balões de ar quente, de se envolver em duelos de esgrima ou de escrever a Voyage.
Na Primavera de Praga dos vinte e sete anos que eu então contava as coisas não eram assim. Comigo não o eram. Íamos então naquele compartimento deliciosamente degradado a folhear a meias – deleitados – um romance menor de um autor de segunda linha (terminologia da época, entenda-se). Este idílio literário prolongou-se funicular acima pela colina de Petrïn e só foi interrompido pelos preparativos para o jantar. À saída de Strahov, no foyer (termos assaz sofisticados para o patamar do piso zero de uma residência universitária barata onde se alugavam quartos a estrangeiros durante a época de exames) demos de caras com um primo da Mafalda, acompanhado por um petulante, amável mas petulante, companheiro de viagem. Foi um encontro em tudo desconfortável.
Jantámos os quatro numa Vinarna da Nerudova. Pelo caminho os nossos companheiros – em viagem à terra de Kafka e Ajvaz – tinham vindo a trocar impressões a mote das minhas pretensões literárias. Em surdina e num tom sobremaneira incomodativo. «O que andas a ler?». Não me recordo da minha réplica mas sei que menti. «Já que amanhã nos vamos separar, trocamos um livro da nossa mochila por um dos vossos?». Passámos-lhes O Processo, recebemos a Ilíada. Eles já o tinham lido. Releriam. Nós já a tínhamos lido. Releríamos. Não eu. Em boa verdade, nem a minha recorrente visitação ao Sófocles, para o mimetizar numa peça que nunca publiquei, nem as sucessivas exortações de um professor do primeiro ano de faculdade, me haviam encaminhado a ler do princípio ao fim aquele que veio a ser o mote da minha Roda de Faraday, onde fiz de Aquiles, Ájax e Heitor heróis juvenis de rixas de bairro, fugas à ronda da noite e estivais madrugadas de uma épica delinquência.

Em suma, nesses dias de fim de viagem, recomecei e terminei a leitura da Ilíada (várias vezes encetada e nunca até então concluída). A primeira leitura completa das que, por imperativo de trabalho ou pura fruição, se seguiram ao longo destes vinte anos. Guardo comigo esse exemplar muito esbeiçado da publicação da Europa-América editada pelo Lyon de Castro e traduzida pelo Cascais Franco. Andam para aqui nas estantes outras traduções, é certo. Porém, quando a quero citar, é a essa que recorro. E mais não digo. Mas nota bem Miguel, nunca se contam histórias sem mentir um pouco.

Alexandre Sarrazola

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

4 X Dominguez Alvarez





Com 20 anos de trabalho no audiovisual, o Homem há-de saber do que fala...

(...) para cada "La-La-Land" com cantorias, há toda uma panóplia de pérolas da pornografia que, à mercê do preconceito e de um profundo desconhecimento do que é o Cinema com "C" grande, acabam por perder-se aos olhos do grande público. (...) Atentemos na extensa filmografia desta última [Tori Black] . No clássico moderno "Panty Pops 3", Tori Black rege-se pela batuta do realizador Kevin Moore. E foi pela cartilha deste Antonioni do hardcore de primeiro escalão, mestre de provas dadas em ópus magnus do calibre de "Anal Corruption", “Big Tit Centerfolds 2" e "Spandex Loads 5", que Tori Black desabrochou (...) Na dialéctica simbiótica estabelecida entre Black e Moore, ecoam resquícios do binómio Howard Hawks / Lauren Bacall, no justamente celebrado "The Big Sleep". Nunca o olhar etéreo mas penetrante de Bacall foi captado com mais rigor pragmático do que quando filmado pela lente de Hawks. E não é dispisciendo afirmar que Tori Black deve muito do seu sucesso à sensível mise-en-scéne de Moore, arquitecto das cenas de reverse cowgirl no revolucionário "Interracial Fantasies" (...) Há relações que duram para sempre, assim é a natureza do cinema.


Filipe Homem Fonseca

Moules Marinières



http://www.bbc.co.uk/food/recipes/moulesmarinierewithc_71787

Experimentem com poejos e/ou hortelã em vez destas ervas.

3 X Frank Zappa

Visto hoje


"Doctor Dolittle" (1967), de Richard Fleischer.

Arroz muito bom





Poesia às Quintas – com Miguel Martins – 223ª sessão – Bar a Barraca – 23 de Fevereiro – 22.30h – entrada grátis

Diniz Conefrey, monge cisterciense e domador de gorilas reformado, lê Maria João Worm, nome maior da lírica albicastrense.
A sessão destina-se a promover o aumento, a manutenção e a redução da TSU (Talvez Seja Útil).
Quem não aparecer é porque fez um alisamento japonês à alma.


P.S.: na segunda foto, Alice Krige, actriz sul-africana e sósia de Maria João.

Ontem, n'A Barraca, perante uma audiência de 23 pessoas
(foto: Joana Azevedo).

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Visto hoje


"Un éléphant me regarde" (2015), de Frank Beauvais.

Segovia Plays Asturias (Albeniz)

6ª resposta



Não me lembro de ter lido a primeira frase. Nem a segunda. Mas recordo com imagem vívida a sensação de não poder senão continuar a ler, do desconforto e da necessidade de ler. A primeira frase que sublinhei foi “Isto não quer dizer nada.” É a quarta, se contar como terceira a que inclui aquilo que um telegrama dizia (“‘Sua mãe falecida. Enterro amanhã. Sentidos pêsames.’”). Foi aí que parei, detida por este atirar para a insignificância a notícia da morte de uma mãe. Por aquele tempo, habitando um quarto interior no segundo andar de um apartamento antigo, suado lugar depois de ruas e demasiados degraus, no Alto do Pina, desatava quanto podia os nós que me prendiam à minha. De uma infância e juventude agarrada às suas saias negras (tão enlutada andou), passava a regrar o tempo entre telefonemas para os montes além do Tejo, muito depois da Serra do Caldeirão, onde a província era ainda, no começo dos noventa, um lugar de acesso demorado e duro – e não só por falta de moedas para o que na altura eram os telefones públicos. Fazia-me eu e os livros eram o que tornava inconsútil a junção daqueles dois retalhos, o da vida antiga e o da vida nova.

“Isto não quer dizer nada.” Assim se oferecia (e eu, por aquele sublinhado, aceitava) anular o que estava para trás. Sem imaginar o que viesse daí por diante – no livro e nessa que em mim estava a criar – , as palavras encontravam-me num quarto que o apartamento tinha cheio de sol às horas da tarde. Era um dia de semana, devia ter voltado das aulas. A casa estava vazia de quem habitualmente ali andava: como o meu quarto não tinha janelas para a rua, invadi aquele onde o sol entrava e de onde ouvia a zoada quieta da rua, vizinhas a falar de janela em janela, poucos automóveis, alguém a perseguir alguém em corrida, uma gargalhada do café da esquina, umas portas abaixo. O segundo andar permite esta distância e esta contiguidade. Seria Verão? O livro comprei-o pelo fim de Setembro – talvez fosse o começo de um Outono, quando as tardes são mornas, quantas vezes sem nuvens, e o ar seco faz propagar os sons como se estivessem ainda mais longe. Havia uma cadeira. Havia uma cadeira que instalei no meio do quarto – à medida que fui lendo, foi como se se fixasse mais ao chão, e as veias onde passava o meu sangue passassem a ser os veios da madeira onde me sentava, imóvel, as mãos nada mais que ramos ressequidos no vento do que imaginava da praia que lia, do quarto de hotel, da cela da prisão, passando as páginas, passando as páginas, passando as páginas.

“O facto de a sentença ter sido lida, não às cinco da tarde, mas às oito horas da noite” tirava à condenação tão grave a seriedade que Mersault esperava – na minha ideia, que a lera pelas cinco da tarde, a gravidade pesava-lhe séria. Às oito da noite talvez já me revolvesse entre a que deixava ir embora, quieta para sempre, conformada com a ordem e a familiaridade que até ali sentira à minha volta, e esta que chegava com o estrangeiro (“Quem é o estrangeiro?”, escrevi numa nota à margem), inquieta, daí para a frente insone, daí para diante refém de uma consciência de conhecer-me a me estranhar, que cada letra naquelas folhas ia afiando.


Ana Isabel Soares
15/02/2017

5ª resposta



Una Casa en la Arena - Pablo Neruda

      (...)"el mar entra de noche,antes del alba: todo queda en la casa quieto y salobre, los platos, los cuchillos, las cosas restregadas por su salvage contacto no perdieron nada, pero se asustaron cuando el mar entró con todos sus ojos de gato amarillo."(...)
     Quando li, ainda jovem, esta obra de Neruda, passava muitas semanas de Verão numa casa tosca, pertença de familiares, no alto das dunas da praia de Monte Clérigo. Aí, onde a electricidade nem sequer chegava, o mesmo "gato amarelo" - Atlântico Norte ou Pacífico Sul - entrava por todos os poros e frinchas e também ocupava a casa com a sua magna e obsessiva presença.
     Neruda coleccionou mulheres amadas, na Ilha Negra onde habitava quando escreveu "Una Casa en la Arena": Eram gigantescas figuras de proa em madeira ressequida - La Medusa, La Sirena, La Maria Celeste, La Novia, La Cymbelina, La Bonita, La Micaela. Também juntou nomes de poetas, escritos a branco nos travejamentos do telhado - Giménez, Cifuentes, Lorca, Éluard, Hernandez, Nazim, Agudo, Zárate. Todo o restante mobiliário da casa era espólio do mar, o mar, o mar, o mar, que por doze vezes (doze capítulos) investe através das páginas deste livro.
     Em Monte Clérigo havia redes de pesca penduradas no tecto, grandes cascas de mexilhão a fazerem de cinzeiros e singelas quadras, escritas nas paredes pelos moradores: "do mar veio uma sereia / seus olhos são duas estrelas / deixou um rasto na areia / de pedrinhas amarelas". Estes foram sinais que ficaram perpetuados no branco do muro e na folha branca de papel, tal como as "Ágatas" título do sétimo capítulo (ou seria andamento?) do livro de Neruda.
     E como não evocar as "conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos", despojos de Pessanha?


Manuel Filipe

Cineastes de notre temps Carl Th Dreyer Eric Rohmer, 1965 (SUB ESP)



À Arrábida e ao cinema volto sempre.


João Bénard da Costa

4ª resposta



E Kant perguntava “como são possíveis os juízos sintéticos a priori?”


Era uma versão minha com dezassete anos. Desistira da engenharia. O ano propedêutico à universidade chamava-se já 12º ano e em circunstâncias muito específicas tinha decidido estudar filosofia. Mas só no ano seguinte. Naquele, as poucas aulas que tinha permitiam-me encher as horas dos dias com música inaudível para adultos e atravessava Lisboa para praticar Karaté. Das poucas disciplinas que tinha, só filosofia me interessava. O nível do francês era já inútil e de história as melhores aulas foram as que não tive, por doença docente. Ainda assim, a filosofia interessava-me apenas pelas aulas do velho professor Catarino. Da panóplia de retratos falsos que eram os filósofos que tinham textos na antologia de textos só Kant interessava, por ser difícil. E era. E é. E será sempre. Estudávamos excertos da Crítica da Razão Pura e da Crítica da Razão Prática. Se nenhum dos textos por si só é independente, por maioria de razão os excertos se aguentavam por si. Mas tinham formulações fascinantes. Sobretudo, aquela pergunta incompreensível e anódina, pensava eu, “como são possíveis os juízos sintéticos a priori”? O que queria isso dizer? Qual a experiência de alguém na sua versão de 17 anos? Atravessar Lisboa para praticar desporto, produzir sons inaudíveis para adultos e ser bárbaro relativamente a tudo aquilo por que mais tarde passamos. Na expectativa inconsciente da vida que estava por vir: ilusões e decepções de ilusões, perdas por morte e afastamento, e o esforço, o trabalho complexo de apropriação do que nos importava e toda a travessia por fazer para chegar até aqui a esta versão envelhecida e outra dos meus 17 anos. Eu tinha de ler a Crítica da Razão Pura da primeira à última página, como se fosse a travessia necessária para ir de uma margem a outra, uma viagem iniciática para perceber se podia compreender como são possíveis juízos sintéticos a priori. A minha primeira versão foi em inglês, traduzida por Norman Kemp Smith. Os meses de Verão gastos na leitura fariam surtir o seu sentido não no dia em que a acabei de ler. Mas qualquer coisa tinha acontecido. Algures um dia mais tarde a leitura haveria de se fazer sentir. O tempo da leitura, os 17 anos, os anos que entretanto passaram, tudo o que é vida estava formulado em Kant. A síntese é possível porque é a vida a encontrar uma maneira de juntar um dia a outro dia, mesmo no desencanto e no sofrimento. O a priori é que é assim mesmo que não se o perceba aos 17 anos. O modo da possibilidade, contudo, abre para o fascínio e o encantamento com que o velho Kant olha para a vida a fazer-se e a trabalhar-nos: “as condições de possibilidade da experiência são simultaneamente as condições de possibilidade dos objectos da experiência”. A vida é a possibilidade de vidas, mesmo daqueles a quem nada aconteceu ou as daqueles a quem tudo aconteceu para ficarem sem conteúdos nem tempo, apenas com o possível de tudo ter sido de outra maneira e a compreensão de que nada pode ser de outra maneira, porque não há outra vez. Tudo é já desde sempre ido e findo. 

António de Castro Caeiro